O fim da era do impulso e o início da era da intenção
O varejo vive uma transição silenciosa e profunda.
Durante anos, o crescimento foi impulsionado por campanhas de desconto, marketing agressivo e metas de volume. Mas o consumidor de 2026 já não compra porque “está barato”. Ele compra porque faz sentido.
Segundo o Estudo Black Friday 2025, o critério “necessidade” cresceu 78% como motivador de compra, enquanto o “preço” caiu 6,6%. Essa mudança de comportamento revela um consumidor mais racional, seletivo e sensível ao valor real de cada produto.
O resultado é que as vendas continuam crescendo, mas de forma diferente: com menos volume por impulso e mais conversão estratégica. A era da intenção exige das empresas uma gestão mais inteligente — que una dados, pessoas e propósito.
As três forças que estão moldando o varejo de 2026
O futuro do varejo será definido por três grandes movimentos:
- A consolidação da inteligência artificial como consultora de compra.
- O ressurgimento das lojas físicas em um ecossistema omnicanal.
- A polarização do consumo e a exigência de confiança.
Cada um desses vetores representa uma mudança estrutural e não uma tendência passageira.
1. Inteligência artificial: do comparador de preço ao conselheiro de decisão
Em 2025, 54,6% dos consumidores brasileiros usaram IA para comparar preços e 45,4% para tirar dúvidas técnicas. Mas o número que mais chama atenção é outro: 30,1% usaram IA para descobrir novos produtos.
Isso significa que a inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta de consulta e se tornou um canal de descoberta e recomendação. O consumidor não busca mais “melhor preço de notebook”, mas pergunta: “qual o melhor notebook até R$3.000 para design gráfico?”.
A IA responde com base em análises de reputação, avaliações e contexto.Em 2026, essa jornada será ainda mais refinada. Os mecanismos conversacionais como ChatGPT, Gemini e Perplexity já influenciam a decisão final tanto quanto o Google.
Para o varejo, isso muda tudo. Não basta aparecer no buscador é preciso ser recomendado pela IA. Isso exige uma nova disciplina chamada Generative Engine Optimization (GEO): otimização de conteúdo para que inteligências artificiais compreendam e priorizem uma marca nas respostas.
Empresas que estruturam corretamente suas informações de produto (descrições, avaliações e dados técnicos) serão as mais visíveis para as IAs. E visibilidade, nesse novo contexto, é sinônimo de lucro.
2. O físico voltou e mais forte do que nunca
Depois da explosão do e-commerce durante a pandemia, muitos apostaram que o varejo físico perderia relevância. Mas 2025 provou o contrário: as lojas físicas cresceram 13,2% como canal de compra, e os aplicativos subiram 6,1%.
O que muda é o papel da loja. Ela deixou de ser ponto de venda e se tornou ponto de experiência e confiança.
O consumidor visita o espaço para ver, tocar e validar o produto — mesmo que finalize a compra online.
Esse fenômeno é a base do varejo omnicanal 360°: o cliente pesquisa no app, compra no site e retira na loja.
De acordo com o relatório El Futuro del Retail Omnicanal (The Loyalty People + Comarch), varejistas que integram dados de canais físicos e digitais aumentam a retenção de clientes em até 25%.
Mais do que presença, o varejo precisa de orquestração. Estoques integrados, políticas de devolução unificadas e comunicação padronizada entre canais criam uma experiência sem atrito. Quem ainda enxerga o físico e o digital como mundos separados está, na prática, deixando dinheiro na mesa.
3. Polarização e confiança: o novo eixo da decisão
O consumidor de 2026 vive dois extremos. De um lado, a alta renda investe mais em produtos premium, onde o gasto acima de R$3.000 cresceu 26%. Do outro, o público de menor poder aquisitivo se mostra cauteloso, concentrando compras essenciais.
Essa divisão cria duas Black Fridays coexistindo: uma baseada em valor, outra em necessidade.
E ambas exigem confiança.
Mais da metade dos consumidores (50,7%) afirma que avaliações no Google são fator decisivo de compra.
A reputação online passou a valer tanto quanto o preço. Marcas com boas avaliações conseguem cobrar mais sem perder competitividade.
A confiança também se traduz em segurança: 76,8% dos brasileiros ainda temem fraudes online. Por isso, marcas que investem em transparência, ou seja, no histórico de preços, na política de devolução ou no atendimento humano, constroem vantagem competitiva duradoura.
O impacto dessas mudanças nas equipes e na gestão de performance
Por trás de cada mudança tecnológica, existe também uma transformação no comportamento humano. Nesse contexto, o papel do RH e da gestão de pessoas torna-se ainda mais relevante, pois são eles que traduzem essas mudanças em práticas organizacionais.
Além disso, o vendedor de 2026 precisa assumir uma postura muito mais consultiva do que operacional. Ele não apenas executa tarefas, mas sim traduz dados, compreende necessidades e conduz o cliente até a decisão final. Consequentemente, a comissão isolada por volume já não é suficiente; o modelo de remuneração deve refletir qualidade e margem.
Nesse sentido, a SER Performance aponta que empresas que personalizam metas e indicadores por loja, produto e perfil de cliente conseguem aumentar em 23% a aderência entre performance e resultado financeiro.
Portanto, na prática, isso significa conectar tecnologia, propósito e remuneração inteligente. As organizações que investem em dashboards de performance e em feedback contínuo já começam a registrar ganhos reais de produtividade e engajamento.
Por fim, a McKinsey (2025) reforça essa visão ao confirmar que companhias que medem e reconhecem performance com base em dados de valor — e não apenas em metas de volume — alcançam 25% mais lucro operacional.
A ascensão do varejo orientado por dados em tempo real
Os dados são o novo combustível do varejo — mas apenas quando utilizados em tempo real. Nesse sentido, o relatório da Conversion revela que 51,8% dos consumidores esperam entregas em até sete dias, e qualquer falha na previsão ou na logística compromete diretamente a experiência de compra.
Diante desse cenário, sistemas de BI e automação integrados tornam-se essenciais, pois permitem ajustes imediatos em campanhas, precificação e gestão de equipes. Assim, durante períodos de pico, como a Black Friday, varejistas que operam com dados sincronizados conseguem reduzir o tempo de resposta em 30% e aumentar o ROI em 22%.
Mais do que isso, o uso de dados em tempo real não se limita à eficiência operacional. Ele também auxilia gestores a identificar gargalos humanos, como sobrecarga, erros e queda de produtividade. Portanto, a integração entre People Analytics e performance comercial emerge como a verdadeira base do novo varejo de alta rentabilidade.
O desafio da margem e o papel do propósito
As empresas estão descobrindo que o verdadeiro crescimento não é o de vendas, mas o de lucro sustentável.
E isso exige propósito — não no discurso, mas na prática.
O consumidor compra de marcas que têm coerência, e o colaborador permanece em empresas que têm clareza.
De acordo com a PwC (Future of Work 2024), funcionários que percebem propósito e transparência na política de remuneração são 30% mais engajados e 23% mais produtivos.
O varejo do futuro será humano, mesmo em meio à automação.
A tecnologia servirá para liberar tempo e energia das pessoas, não para substituí-las.
Gestores preparados saberão usar IA para prever comportamentos e personalizar recompensas, transformando performance em cultura.
O que vai explodir em 2026: previsões e oportunidades
O cruzamento dos dados de mercado revela o que vai dominar o cenário nos próximos meses:
- IA como canal de vendas direto
- Chatbots conversacionais com integração a plataformas de pagamento.
- Experiências personalizadas por perfil e histórico de compra.
- Modelos de fidelização gamificados
- Pontuação e recompensas integradas ao comportamento omnicanal.
- Segundo a Comarch, programas com gamificação aumentam a retenção em até 35%.
- Remuneração baseada em valor entregue
- Bonificações atreladas à margem, à satisfação do cliente e ao tempo de relacionamento.
- Bonificações atreladas à margem, à satisfação do cliente e ao tempo de relacionamento.
- Treinamento contínuo via IA
- Plataformas adaptativas de aprendizagem, ajustando conteúdo ao nível de cada colaborador.
- Plataformas adaptativas de aprendizagem, ajustando conteúdo ao nível de cada colaborador.
- Gestão de reputação como ativo estratégico
Monitoramento de menções, reviews e dados de sentimento em tempo real.
Conclusão, 2026 será o ano do varejo consciente
O mercado está amadurecendo, e esse movimento abre espaço para uma nova forma de competir. Nesse cenário, o varejo de 2026 não será definido apenas por quem vende mais, mas sim por quem vende melhor.
Assim, empresas que compreenderem o novo consumidor, integrarem dados de forma estratégica e humanizarem seus modelos de remuneração terão uma vantagem significativa. Em outras palavras, sairão na frente na corrida pela relevância e sustentabilidade dos resultados.
Além disso, a inteligência artificial desponta como a parceira invisível das decisões, enquanto a Gestão de Pessoas assume o papel de maestro da performance. Dessa maneira, tecnologia e gestão de pessoas se unem para criar um ambiente mais consciente e orientado por valor.
Por fim, o que está prestes a explodir não é o simples volume de vendas, mas sim a consciência de valor — tanto do cliente quanto das próprias empresas. Portanto, 2026 marca o início de uma era em que vender bem será mais importante do que vender muito.
FAQ – Perguntas frequentes sobre o varejo de 2026
1. O que muda no comportamento do consumidor em 2026?
O foco sai do preço e vai para o valor. O consumidor compra com intenção, buscando marcas confiáveis e experiências reais.
2. O varejo físico volta a crescer?
Sim. Em 2025, o crescimento foi de 13,2%. A loja física agora é parte essencial da estratégia omnicanal.
3. IA vai substituir vendedores?
Não. Ela complementa. Automatiza dados e libera o vendedor para focar no que o consumidor quer: atenção e confiança.
4. Como o Gestor pode se adaptar?
Com políticas de remuneração inteligentes, metas personalizadas e integração entre performance e propósito.
FONTES E DADOS:
SER PERFORMANCE. Dados internos de performance, remuneração e engajamento.
DELOITTE. Global Human Capital Trends 2025. Deloitte Insights, 2025.
WORLD ECONOMIC FORUM (WEF). Future of Jobs Report 2025. Geneva: WEF, 2025.
MERCER. Global Talent Trends 2024–2025. Mercer Insights, 2025.
PwC. Barômetro de Empregos & Inteligência Artificial 2025. PwC Brasil, 2025.
GARTNER. Impacto do Futuro do Trabalho no RH. Gartner Research, 2025.
GALLUP. State of the Global Workplace 2024. Gallup Press, 2024.






